quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Já se Havia Concluído que Eu Sou a Raposa

Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
- AH! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que "estar preso" quer dizer?
(...)
- É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
(...)
Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
(...)
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
(...)
Foi assim que o principezinho prendeu a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...

2 Comments:

Blogger Jorge said...

Life is something mysterious. It is full of joy, surprises and sometimes deceptions and tears. Some people have tried, with some degree of success, to characterize it as a switch, stating that sometimes it is down and sometime it is up. But my existence as shown me that life is a far more complex device or machinery. When we try to compare life with a switch we are ignoring fundamental, or better, THE fundamental aspects of life: fate and hope. It is the combination of these two characteristics that make us wake up every morning even when life has taken us to the darker side of the moon where the sun never bothers to look.

It is when life takes from you, without compassion, – one very small piece at a time – a sunbeam from your brightest star and that you feel that your light will never glow again, that the same entity that took the most precious things from you will open a door and will introduce to you a new soul. And this soul will change your life for the rest of eternity.

But you should be aware and attentive, because the new soul has only revealed something which has been there forever and only needed to be discovered like a wonderful diamond hidden in the deepest mines of South Africa. In one of his master pieces, Saint-Exupéry introduces the Little Prince to the Fox. At first sight, it may seem that the Little Prince, i.e. the new soul, was the hero of the account, but a closer interpretation disclose that it was the Fox that was full of love, kindness, concern, and was sensitive. The Fox only needed to be discovered and its beauty was immutable as Mount St. Helens in Seattle.

2:56 da tarde  
Blogger Shinobi said...

Adorei o post e amei o livro!
Embora reconheça que as minhas preferências de leitura se reconduzam mais ao épico e ao romance histórico.

Quando li "O Principezinho", ao contrário do tradicional vermelho, passei a atribuir ao amor e à amizade uma cor dourada, não sei porquê!

10:17 da tarde  

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